Em todos os nossos locais temos momentos, de todos eles memórias.
Da sala o aconchego e sobretudo o orgulho do meu pai nela. Dizia-me “Li estes livros todos. Duvido que algum dia os leias”. Olhava prolongadamente para os quadros e passeava-se por ela. Mas a televisão que durante muitos anos pouco aparecia por estar socialmente escondida no móvel da televisão, acabou por teimosia ser um dos actores principais daquela divisão.
Do meu quarto, os beijos de boa noite e os momentos de adolescência em que de headphones gigantes punha a música no máximo e sonhava com um namorado que fazia as coisas principescas mais extraordinárias para me encantar.
Do quarto dos meus pais, o refúgio sempre que tinha um pesadelo, o sítio onde jogava uma espécie de andebol com o meu pai, onde líamos revistas e jornais, e local dos doces sorrisos ternurentos e das lágrimas mais tristes, mas sobretudo um local de paz.
Mas há um local que desde sempre tenho boas recordações. A Copa…
A copa onde comíamos por sermos apenas três e não justificar o trabalho de comer na sala de jantar. Não são só lembranças de refeições, são lembranças de conversas, são lembranças de reunião, numa divisão que sempre encantou pela luz, pela paisagem esverdejante que torna a janela num quadro, que encanta mesmo quando chove, quando faz frio, quando anoitece e sobretudo das muitas vezes que há fogo de artificio no alto do parque. Esta copa tem algo de especial… Por alguma razão que não sei explicar… No dia em que o meu pai partiu, o que começou por ser o local de almoço para cinco, tornou-se rapidamente numa sala de estar para uns doze. Se fomos para a sala? Penso que sim, mais para o fim do dia. Continuo a passar mais tempo lá do que em qualquer outro canto da casa, mesmo que o quarto dos meus pais ou a sala me aconcheguem. E ainda ontem, depois do jantar do meu aniversário lá estava eu e 3 das minhas meninas lindas sentadas em doce cavaqueira à volta da mesa, em reunião, como parece ter sido sempre…
À copa!
Já pensei em ter vários blogues, todos eles com vários temas, mas cheguei a uma simples conclusão... Estariam sempre desactualizados e teria sempre dúvidas sobre em qual escrever, o que provocaria uma cada vez maior ausência deste espaço. Assim sendo, Procellarum ou Face Oculta, é tudo o mesmo... Sempre a mesma luz, sempre a mesma escuridão, sempre a mesma clarividência, sempre a mesma confusão. EU
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
segunda-feira, 23 de abril de 2007
Zonas da memória

Ainda antes de me lembrar do vicio da feira do livro, dos primeiros beijos apaixonados num jardim, de descidas vertiginosas de bicicleta sem travões parque abaixo, do Papa João Paulo II, de corridas labirinticas por entre as sebes, das aulas de ginástica infantil em plena primavera, de patos, patinhos e cisnes a comerem as minhas bolachas, lembro-me dos primeiros animaizinhos dos quais não tive medo... os bichinhos de conta!
Pic: BlackMamba
domingo, 22 de abril de 2007
Esta Lisboa que eu amo!
Não consigo passear por Lisboa, sem me lembrar de gentes, pessoas, espaços e momentos.
O saudosismo inunda-me, as recordações bombardeiam-me!
Há sitios que me entristecem, outros que me aconchegam...
Mas ultimamente, Lisboa ao fim-de-semana, a que frequento,
deixa-me muda, silenciosa, apreensiva e serena...
Lembro-me do casarão que caíu, vejo o prédio que se ergueu...
Um atrás do outro, uma cidade em movimento...
Há locais em que penso - Que pena...
Há outros em que sinto orgulho em ser lisboeta...
Sinto Lisboa como a minha terra...
Sinto-a no meu tempo,
Sinto-a pelos momentos descritos pelo meu pai na sua época...
Consigo vê-la há 86 anos atrás e desde trinta e picos para cá...
E agora que me distanciei por uns tempos...
Quando a vejo, absorvo-a e sinto-a...
O cheiro é o mesmo...
A luz? Também...
As gentes de bairro mantêm-se...
As pessoas e os momentos? Já foram...
mas ainda AQUI estão
Amo-TE Lisboa!
Pic: peitxon
O saudosismo inunda-me, as recordações bombardeiam-me!
Há sitios que me entristecem, outros que me aconchegam...
Mas ultimamente, Lisboa ao fim-de-semana, a que frequento,
deixa-me muda, silenciosa, apreensiva e serena...
Lembro-me do casarão que caíu, vejo o prédio que se ergueu...
Um atrás do outro, uma cidade em movimento...
Há locais em que penso - Que pena...
Há outros em que sinto orgulho em ser lisboeta...
Sinto Lisboa como a minha terra...
Sinto-a no meu tempo,
Sinto-a pelos momentos descritos pelo meu pai na sua época...
Consigo vê-la há 86 anos atrás e desde trinta e picos para cá...
E agora que me distanciei por uns tempos...
Quando a vejo, absorvo-a e sinto-a...
O cheiro é o mesmo...
A luz? Também...
As gentes de bairro mantêm-se...
As pessoas e os momentos? Já foram...
mas ainda AQUI estão
Amo-TE Lisboa!
Pic: peitxon
sábado, 17 de fevereiro de 2007
De volta ao colégio
Cinco minutos de espera
Uma hora de explicações
Quarenta minutos de memórias
Dez minutos de informações...
Meia-hora de trânsito...
Meia-hora de divagações...
Minutos de outro mundo
Outro mundo que já foi meu
Foram quarenta minutos
de cheiros, risos e sabores...
Minutos cheios de contos
de caras, jogos e sorrisos
Fiquei lá...
e não quis sair...
Fiquei naquele meu canto
de intensas e felizes memórias...
e não quis sair...
Fiquei apática...
num mundo de sonho...
Acordei aos poucos
acabei por sair...
voltei a este mundo
e voltei a sorrir
apática é certo...
mas a sorrir...
Acabei um dos dias mais intensos deste curto ano
com a média de dois quartos...
dois quartos do tempo de dor, preocupações e lágrimas
os outros dois de sorrisos, carinho e recordações...
Quais vencem?
Os dois quartos de sorrisos, é claro!
Pic: ideesfixe
sábado, 3 de fevereiro de 2007
A Maravilha de Portugal
Já votei nas sete maravilhas de Portugal...
Castelo de Almourol, Convento de Cristo de Tomar, Mosteiro dos Jerónimos, Palácio Nacional da Pena, Templo Romano de Évora, Torre de Belém e Mosteiro de Alcobaça são os meus contemplados.
Castelo de Almourol e Convento de Cristo de Tomar por associação aos templários, Mosteiros dos Jerónimos e Torre de Belém por serem os monumentos mais imponentes da minha cidade, Mosteiro de Alcobaça por D. Pedro e D. Inez, Templo Romano de Évora por óbvias e naturalissímas razões e por último Palácio Nacional da Pena pela sua magia.
Se fossem as dez maravilhas de Portugal rapidamente adicionaria à minha escolha o Castelo de Monsanto, Palácio da Regaleira e o Castelo dos Mouros, infelizmente não contemplados na listagem dos 21 finalistas.
Mas o meu vencedor? O único, o principal? Palácio da Pena... Mas não vence per si... vence por ele e por tudo o que o rodeia... Pela serra, castelo, palácios, palacetes, ruas estreitas, árvores centenárias, pedras gigantes, mistério, fantasia, magia... O local perfeito...
Quem não vota em Sintra nunca a visitou, nunca se aventurou a subir a serra por entre gigantescos pedragulhos, nunca se deslumbrou em pleno... Serra de Sintra é magia.
Recordo com saudade a tradição do dia dois de Janeiro. Foram quatro anos em que eu e os meus amigos nos enfiávamos no combóio, na estação de Cruz de Pedra em Benfica, logo de madrugada, em direcção a Sintra. Chegados à vila começáva-mos a subir a serra sempre em corta-mato. Nunca percorremos o mesmo caminho, apenas o ínício e o fim eram iguais. O objectivo? Galgar as muralhas do Castelo dos Mouros sempre sob o olhar surpreendido dos turistas. Perdemo-nos imensas vezes, fugimos de cães por inadvertidamente entrarmos em propriedade privada, saltámos muros de três metros, trepámos inconscientemente, passámos por espaços ridiculamente pequenos, escorregámos em folhas molhadas e caímos de alturas ridículas... Chegar a meio do caminho a dizer "não aguento mais..." era uma constante nas meninas... mas com a ajuda uns dos outros chegávamos lá acima. O dislumbre! O objectivo não era apenas chegar lá acima... era sentir a serra, lutar por ela, esforçar-nos por tê-la. Era assim que eu me sentia assim que galgava as muralhas... Merecia tudo o que estava a ver e a sentir, sentia que a serra era minha.
A volta para casa? Depois da passagem pela Piriquita, entrávamos no combóio. Todos nos olhavam como se fossemos mendigos... Calças de ganga azuis, castanhas de tão sujas e ainda por cima rotas... meio caminho andado para o caixote de lixo. E muito, mas muito, desgrenhados... Mas eu sentia-me muito limpa, por dentro. Sentia-me super saudável e pronta para outra...
A imagem do dia seguinte? Eu e a Joana a subir a escadaria do Liceu a 1km/hora... Ai! Nem as pernas conseguíamos dobrar...
Saudades...
Castelo de Almourol, Convento de Cristo de Tomar, Mosteiro dos Jerónimos, Palácio Nacional da Pena, Templo Romano de Évora, Torre de Belém e Mosteiro de Alcobaça são os meus contemplados.
Castelo de Almourol e Convento de Cristo de Tomar por associação aos templários, Mosteiros dos Jerónimos e Torre de Belém por serem os monumentos mais imponentes da minha cidade, Mosteiro de Alcobaça por D. Pedro e D. Inez, Templo Romano de Évora por óbvias e naturalissímas razões e por último Palácio Nacional da Pena pela sua magia.
Se fossem as dez maravilhas de Portugal rapidamente adicionaria à minha escolha o Castelo de Monsanto, Palácio da Regaleira e o Castelo dos Mouros, infelizmente não contemplados na listagem dos 21 finalistas.
Mas o meu vencedor? O único, o principal? Palácio da Pena... Mas não vence per si... vence por ele e por tudo o que o rodeia... Pela serra, castelo, palácios, palacetes, ruas estreitas, árvores centenárias, pedras gigantes, mistério, fantasia, magia... O local perfeito...
Quem não vota em Sintra nunca a visitou, nunca se aventurou a subir a serra por entre gigantescos pedragulhos, nunca se deslumbrou em pleno... Serra de Sintra é magia.
Recordo com saudade a tradição do dia dois de Janeiro. Foram quatro anos em que eu e os meus amigos nos enfiávamos no combóio, na estação de Cruz de Pedra em Benfica, logo de madrugada, em direcção a Sintra. Chegados à vila começáva-mos a subir a serra sempre em corta-mato. Nunca percorremos o mesmo caminho, apenas o ínício e o fim eram iguais. O objectivo? Galgar as muralhas do Castelo dos Mouros sempre sob o olhar surpreendido dos turistas. Perdemo-nos imensas vezes, fugimos de cães por inadvertidamente entrarmos em propriedade privada, saltámos muros de três metros, trepámos inconscientemente, passámos por espaços ridiculamente pequenos, escorregámos em folhas molhadas e caímos de alturas ridículas... Chegar a meio do caminho a dizer "não aguento mais..." era uma constante nas meninas... mas com a ajuda uns dos outros chegávamos lá acima. O dislumbre! O objectivo não era apenas chegar lá acima... era sentir a serra, lutar por ela, esforçar-nos por tê-la. Era assim que eu me sentia assim que galgava as muralhas... Merecia tudo o que estava a ver e a sentir, sentia que a serra era minha.
A volta para casa? Depois da passagem pela Piriquita, entrávamos no combóio. Todos nos olhavam como se fossemos mendigos... Calças de ganga azuis, castanhas de tão sujas e ainda por cima rotas... meio caminho andado para o caixote de lixo. E muito, mas muito, desgrenhados... Mas eu sentia-me muito limpa, por dentro. Sentia-me super saudável e pronta para outra...
A imagem do dia seguinte? Eu e a Joana a subir a escadaria do Liceu a 1km/hora... Ai! Nem as pernas conseguíamos dobrar...
Saudades...
Pic: uma das velhas fotos que resistiram aos pioneses do painel de cortiça lá de casa (cortei caras por excesso de zelo...)
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sábado, 30 de dezembro de 2006
Évora
Évora tem qualquer coisa...
Qualquer coisa de velho
De antigo, fantasmas
De mistério...
Évora é fria
é quente
Évora é...
Calçada irregular
Ruas estreitas
Casas pequenas
Portas Lilliputianas
Casas antigas
Traça simples
Surpresas por dentro...
Arcos...
Tantos arcos
Cada parede um arco
Paredes espessas
com tantos segredos
por contar
Mistério...
História...
Qualquer coisa de velho
De antigo, fantasmas
De mistério...
Évora é fria
é quente
Évora é...
Calçada irregular
Ruas estreitas
Casas pequenas
Portas Lilliputianas
Casas antigas
Traça simples
Surpresas por dentro...
Arcos...
Tantos arcos
Cada parede um arco
Paredes espessas
com tantos segredos
por contar
Mistério...
História...
Enredos...
Dou por mim
A olhar para cada canto
Para cada varanda
Para cada janela
Para cada porta
Para cada parede
E vejo tanto...
E perco-me em deambulos
Vagueio...
Olho, vejo e penso
Sinto a terra
Sinto a gente
Sinto tanto...
E vagueio em pensamentos
Pic: TiagoPalma
Dou por mim
A olhar para cada canto
Para cada varanda
Para cada janela
Para cada porta
Para cada parede
E vejo tanto...
E perco-me em deambulos
Vagueio...
Olho, vejo e penso
Sinto a terra
Sinto a gente
Sinto tanto...
E vagueio em pensamentos
Pic: TiagoPalma
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
"Vou para a terrinha..."
Snif...
Queria nesta altura do ano, não ser original. Queria ser igual a tanta gente... Viver a asáfama de uma viagem e dizer “pois, não vou cá estar... vou para a terrinha”. Seja a terrinha, uma simples terrinha, ou uma cidade fora deste espaço. Sim, adoro Lisboa e tudo o que ela simboliza... Mas ir para a terrinha? Faz-me tanta falta... E faz-me falta porque em tempos fui para a terrinha... E para lá fui até aos meus onze anos... E faz-me mais falta hoje do que há uns anos atrás porque as memórias são cada vez mais distantes...
Muito embora a família da minha mãe seja muito unida, nesta altura do ano fazem-me falta os meus avós. São eles as personagens principais dos natais da minha infância. Recordo-me de todos os rostos dos presentes nas ceias de Natal porque sei que era tradição lá estarem, mas dos rostos dos meus avós? Lembro-me tão bem... tenho a imagem do meu avô de roupão castanho sentado, já muito velhinho, ao centro da mesa, que não era costume, já que ele se sentava sempre à cabeceira. Da minha avó? O sorriso... de lábios finos, boca rasgada... a ver a alegria dos netos...
Que Saudades...
Será que vocês me lêem na blogosfera?
Claro que não, que palermice...
mas sei que me vêem...
no início do ano quando vos visitei falei interiormente com vocês...
hoje falo outra vez...
Desculpem-me se vos desiludo todos os dias, se não sou aquele ideal de neta que vocês desejavam... somos muitos netos, eu sei... mas sinto que vos falho todos os dias... Ai! Se vocês estivessem cá... Se vocês me lessem... não, não só o que escrevo, mas tudo o que digo e sinto, o que não digo e não faço, decerto ficariam desiludidos...
Quero apenas dizer-vos que conseguiram passar-me o que para mim é mais importante que tudo.
Vocês e os meus pais deram-me o melhor presente do mundo.
Entendo o amor, sinto, amo e vivo para amar e sentir.
Queria nesta altura do ano, não ser original. Queria ser igual a tanta gente... Viver a asáfama de uma viagem e dizer “pois, não vou cá estar... vou para a terrinha”. Seja a terrinha, uma simples terrinha, ou uma cidade fora deste espaço. Sim, adoro Lisboa e tudo o que ela simboliza... Mas ir para a terrinha? Faz-me tanta falta... E faz-me falta porque em tempos fui para a terrinha... E para lá fui até aos meus onze anos... E faz-me mais falta hoje do que há uns anos atrás porque as memórias são cada vez mais distantes...
Muito embora a família da minha mãe seja muito unida, nesta altura do ano fazem-me falta os meus avós. São eles as personagens principais dos natais da minha infância. Recordo-me de todos os rostos dos presentes nas ceias de Natal porque sei que era tradição lá estarem, mas dos rostos dos meus avós? Lembro-me tão bem... tenho a imagem do meu avô de roupão castanho sentado, já muito velhinho, ao centro da mesa, que não era costume, já que ele se sentava sempre à cabeceira. Da minha avó? O sorriso... de lábios finos, boca rasgada... a ver a alegria dos netos...
Que Saudades...
Será que vocês me lêem na blogosfera?
Claro que não, que palermice...
mas sei que me vêem...
no início do ano quando vos visitei falei interiormente com vocês...
hoje falo outra vez...
Desculpem-me se vos desiludo todos os dias, se não sou aquele ideal de neta que vocês desejavam... somos muitos netos, eu sei... mas sinto que vos falho todos os dias... Ai! Se vocês estivessem cá... Se vocês me lessem... não, não só o que escrevo, mas tudo o que digo e sinto, o que não digo e não faço, decerto ficariam desiludidos...
Quero apenas dizer-vos que conseguiram passar-me o que para mim é mais importante que tudo.
Vocês e os meus pais deram-me o melhor presente do mundo.
Entendo o amor, sinto, amo e vivo para amar e sentir.
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domingo, 19 de novembro de 2006
Viagens...

Como as viagens mudam...
Antes ía sempre sentada no banco de trás do carro...
Entrava no carro e ao sentir o cheiro enjoativo dos estofos em pele desejava que a viagem fosse curta...
Encostava a cabeça ao vidro, passávamos a ponte e começava a ver os barcos que passeavam no rio... sabia que ainda faltava mais de uma hora de caminho...
Olhava para as nuvens e via tudo... animais, flores, carros, até pessoas... lembro-me de um dia ter reconhecido o perfil do meu tio Luís nas nuvens...
Assim que deixava de reconhecer figuras nas nuvens... começava a cantar...
Cantava tudo e mesmo as letras das músicas que não sabia, inventava...
Cansada de cantar... começava a olhar para as matrículas dos carros que passavam e pelas letras dava nomes aos seus passageiros...
A certa altura começava a ficar impaciente...
Ainda falta muito?
- Estamos quase a chegar a Águas de Moura, daqui a pouco vês a Cegonha – dizia a minha mãe.
E assim a ansiedade diminuia... Próximo intertenimento: A Cegonha...
E ao fim de algum tempo ali estava ela, no campanário de uma igreja do lado esquerdo da estrada...
Depois de Águas de Moura? Ainda Pegões, Vendas-Novas, Montemor...
Viagem interminável... De passagem nenhuma das terras me cativava...
Interessavam-me mais os campos lisos, todos amarelos, com uma árvore aqui e outra acolá... Uma anta! Olha mãe! Uma anta!... E por minutos a viagem parecia rápida... As vacas a pastarem também me distraíam... ficava feliz ao passar pela barragem e vê-la cheia... Imaginava-me a tomar grandes banhocas...
Passávamos por Santa Sofia, e de todas as vezes a minha mãe dizia – É ali que o Engenheiro Chaves está enterrado... – (um aparte... ainda hoje quando por lá passamos a minha mãe olha e sorri... porque pensa em dizer a frase de sempre, mas não a diz só para não ouvir “Sim mãe, já sabemos...”).
E por fim chegávamos! Saía do carro toda moída e ía brincar para casa dos meus avós. Estranho é pensar que a viagem de ida era sempre assim, mas da viagem de volta nem me lembro... Sempre tão rápida...
Hoje em menos de uma hora chego ao destino...
hoje sou eu que conduzo...
hoje pouco vejo...
Hoje pouco vivo a alegria e a ansiedade de uma longa viagem...
Imagem: tilde by CubicSummer
Antes ía sempre sentada no banco de trás do carro...
Entrava no carro e ao sentir o cheiro enjoativo dos estofos em pele desejava que a viagem fosse curta...
Encostava a cabeça ao vidro, passávamos a ponte e começava a ver os barcos que passeavam no rio... sabia que ainda faltava mais de uma hora de caminho...
Olhava para as nuvens e via tudo... animais, flores, carros, até pessoas... lembro-me de um dia ter reconhecido o perfil do meu tio Luís nas nuvens...
Assim que deixava de reconhecer figuras nas nuvens... começava a cantar...
Cantava tudo e mesmo as letras das músicas que não sabia, inventava...
Cansada de cantar... começava a olhar para as matrículas dos carros que passavam e pelas letras dava nomes aos seus passageiros...
A certa altura começava a ficar impaciente...
Ainda falta muito?
- Estamos quase a chegar a Águas de Moura, daqui a pouco vês a Cegonha – dizia a minha mãe.
E assim a ansiedade diminuia... Próximo intertenimento: A Cegonha...
E ao fim de algum tempo ali estava ela, no campanário de uma igreja do lado esquerdo da estrada...
Depois de Águas de Moura? Ainda Pegões, Vendas-Novas, Montemor...
Viagem interminável... De passagem nenhuma das terras me cativava...
Interessavam-me mais os campos lisos, todos amarelos, com uma árvore aqui e outra acolá... Uma anta! Olha mãe! Uma anta!... E por minutos a viagem parecia rápida... As vacas a pastarem também me distraíam... ficava feliz ao passar pela barragem e vê-la cheia... Imaginava-me a tomar grandes banhocas...
Passávamos por Santa Sofia, e de todas as vezes a minha mãe dizia – É ali que o Engenheiro Chaves está enterrado... – (um aparte... ainda hoje quando por lá passamos a minha mãe olha e sorri... porque pensa em dizer a frase de sempre, mas não a diz só para não ouvir “Sim mãe, já sabemos...”).
E por fim chegávamos! Saía do carro toda moída e ía brincar para casa dos meus avós. Estranho é pensar que a viagem de ida era sempre assim, mas da viagem de volta nem me lembro... Sempre tão rápida...
Hoje em menos de uma hora chego ao destino...
hoje sou eu que conduzo...
hoje pouco vejo...
Hoje pouco vivo a alegria e a ansiedade de uma longa viagem...
Imagem: tilde by CubicSummer
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sábado, 28 de outubro de 2006
Freiria

Consigo percorrer aquela casa e lembrar-me dela ao pormenor...
Chego ao portão e bato à porta...
Alguém aparece à janela para ver quem é...
A porta abre-se e entro num páteo de granito onde uma laranjeira de laranjas enormes e azedas enche grande parte do espaço. Disseram-me que essa árvore foi plantada pelo meu avô, uma laranjeira enxertada de limoeiro, para que todas as manhãs numa determinada altura do ano as comesse... diziam que fazia bem comer laranjas azedas. Chego ao outro lado do páteo e tenho três opções... Virar à direita para subir as escadas e entrar na casa principal, dirigir-me ao canto do páteo e entrar num corredor de arcadas que me leva a um segundo páteo, ou ir em frente e abrir a porta de um anexo que é provavelmente a parte mais antiga da casa.
Chego ao portão e bato à porta...
Alguém aparece à janela para ver quem é...
A porta abre-se e entro num páteo de granito onde uma laranjeira de laranjas enormes e azedas enche grande parte do espaço. Disseram-me que essa árvore foi plantada pelo meu avô, uma laranjeira enxertada de limoeiro, para que todas as manhãs numa determinada altura do ano as comesse... diziam que fazia bem comer laranjas azedas. Chego ao outro lado do páteo e tenho três opções... Virar à direita para subir as escadas e entrar na casa principal, dirigir-me ao canto do páteo e entrar num corredor de arcadas que me leva a um segundo páteo, ou ir em frente e abrir a porta de um anexo que é provavelmente a parte mais antiga da casa.
Nesse anexo poucas vezes entrei... Lembro-me de entrar nele quando já não existiam mobílias, depois de o meu avô falecer. Tinha o tecto todo pintado sob madeira... coisa antiga dizem... mas todo o anexo era em si muito escuro, muito pesado, muito triste... Saio do anexo que não me traz quaisquer recordações... Volto ao páteo, onde com nove anos jogava futebol com o meu primo de quatro – a porta do anexo era uma baliza, o portão da casa era outra... a minha baliza era sempre a porta do anexo (a mais pequena) – e lembro-me de os meus avós nos olharem da janela do seu quarto que se encontrava na casa principal por cima do anexo. Começo a subir as escadas de granito que me levam para a entrada da casa. “Se é Deus que trazes contigo nesta casa tens abrigo” diz um painel que se encontra no início da escadaria com degraus estreitos e altos que estranhamente nunca me fizeram cair...
Chego à casa, entro na sala de visitas cujo tecto é abobadado e lembro-me do piano, da mesa de centro, dos mapples... lembro-me das pessoas que visitavam os meus avós... se não fossem família raramente ultrapassavam essa divisão... A casa em si, sempre foi muito confusa... De uma divisão passava-se para outra, atrás de uma porta havia uma escada em caracol que me levava para os quartos do segundo piso e ao sotão...
A sala de estar, e não das visitas, era pequena e tinha poucas finalidades... lá víamos televisão, jogávamos às cartas e os primos muito mais velhos que eu e tios bebiam o seu whisky e fumavam um cigarro... Já no final de vida da minha avó, e quando o meu avô já não estava presente, nos fins-de-semana em que eu era a única criança da casa, jogava crapot com ela, tentava-lhe fazer fisioterapia à mão afectada pela trombose, acompanhava-a na eucaristia dominical vista na TV e abria a porta ao padre que lhe ía dar a comunhão.
A divisão onde todos convivíamos era a sala de jantar. Chegávamos a ser vinte e seis à mesa! Família grande... Local priveligiado para Ceia de Natal, encabeçado por uma lareira que na noite de consoada se inundava de presentes. Todas as crianças cantavam, lia-se uma ou duas passagens do Novo Testamento e depois... a euforia! Foi com cinco anos que descobri que o Pai Natal era a minha prima mais velha... Não fiquei triste, porque muito embora os colegas de escola dissessem que quem dava os presentes era o Pai Natal, sempre pensei que era o menino jesus que os oferecia...
A sala de jantar dava para o quarto grande dos meus avós, para o quarto dos residentes (qualquer familiar que habitasse permanentemente a casa por estar na universidade da terra), para a escadaria exterior da casa e para um hall.
Casa confusa...
O hall tinha um relógio alto, um telefone, e dava para a Sala de Estar, Sala das visitas, para a porta de acesso às escadas em caracol que me levava ao andar superior e para a Cozinha e copa de inverno. Na cozinha descia outra escadaria, também ela em granito com degraus estreitos e altos, que me levava à cozinha de verão – pouco ou raramente utilizada na minha época –, à sala de jantar de verão e à porta de acesso do segundo páteo... Que medo tinha eu dessas escadas... Aliás, não era das escadas, era de tudo... Descia-as a correr, subia-as de três em três degraus e sempre a olhar para o chão... Não sei se era das sombras – no alto da parede do fundo das escadas existia uma janela redonda em vitral com forma de uma rosácea -, se era das estórias que me contavam, as quais nem me lembro, sobre a sala de estar de verão... sempre muito escura, não sei... Mas sempre tive medo...
Fui uma vez aos páteos à noite e nunca mais repeti a façanha.
O páteo da entrada era o que menos receava, o corredor desse páteo para o segundo – para onde dava a cozinha de verão – fazia-me confusão, principalmente por causa das arcadas, das imensas portas de divisões pouco utilizadas – casa da costura, dispensa, escritório de verão, casa de passar a ferro, sala de estudo e casa de banho de apoio – que me faziam imaginar algum ser qualquer a saltar lá de dentro. Desse segundo páteo para o terceiro páteo... nem pensar... Era o páteo do poço, das muitas àrvores, da casa do carvão e de mais uma casa que nunca percebi a finalidade... O páteo do poço... Se as estórias que me contaram eram mentira, enganaram todas as crianças desta família muito bem. Nunca nenhum de nós se chegou perto do poço por pensarmos que poderia aparecer um fantasma de um frade a dizer “Vai de recto” e a fazer o sinal da cruz.
Enfim, páteos dos horrores à noite, páteos das melhores brincadeiras de sempre de dia. Percorro a casa em memórias e qualquer coisa me trás boas recordações... Até as nódoas negras, as discussões, a neura de não ter ninguém para brincar nos fins-de-semana em que os meus primos não iam, até os medos me trazem saudade...
Normalmente diz-se que não se devem visitar sitios dos quais guardamos memórias felizes, para que as nossas lembranças se mantenham intocáveis.
Normalmente diz-se que não se devem visitar sitios dos quais guardamos memórias felizes, para que as nossas lembranças se mantenham intocáveis.
Visitei a casa dos meus avós há pouco tempo, pedi ao novo dono para a fotografar, enviei as fotos à minha família, expliquei-lhes as alterações e melhorias feitas pelo novo dono, mostrei-me feliz por ver que a grande maioria das alterações era bem conseguida, elogiei o facto de a casa estar tão bem cuidada, comentei uma alteração que ao principio me chocou e depois me cativou... a mudança do chão do segundo páteo de granito para calçada portuguesa...
Só posso dizer que voltei feliz e com uma doce saudade dos doces momentos que lá passei.
Imagem: skywalker
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